LIDERANÇA ADAPTATIVA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA: INSIGTHS E DESAFIOS

José Ricardo Mole • 11 de agosto de 2025

1. Introdução

A ascensão das Inteligências Artificiais (IA's) generativas, como ChatGPT, Bard e Copilot, representa uma ruptura nas práticas educativas tradicionais. Essas ferramentas e outras conseguem criar conteúdos complexos, imagens, textos e feedback pedagógico com fluência semelhante à produção humana. Nessa perspectiva, a liderança educacional se encontra diante de um cenário em que deve integrar essas tecnologias de forma estratégica, ética e pedagógica, promovendo uma cultura de inovação sem abrir mão dos princípios humanos da educação.


Nesse contexto, lideranças educacionais precisam desenvolver visão sistêmica que englobe alfabetização em IA (IA literacy), gestão de dados, formação docente e governança ética (compliance). No Brasil, autores como Leomar Campelo Costa e Ilka Márcia Serra destacam que a adoção da IA generativa exige adaptações no processo ensino‑aprendizagem, para preservar o desenvolvimento pleno dos estudantes (Cf. SciELO).


2. O que muda com a IA generativa para as lideranças educacionais


Líderes educacionais deixam de exercer apenas funções administrativas para assumir papéis estratégicos mais profundos. Precisam garantir aos professores, aos estudantes e às equipes técnicas a alfabetização em IA.


Um panorama recente destaca que educadores percebem a IA generativa como ferramenta poderosa para personalização do ensino, criação de conteúdos e programação, mas, requerem orientação ética e pedagógica para evitar dependência e perda de habilidades cognitivas.


Além disso, os gestores passam a precisar estabelecer critérios claros sobre uso de IA: curadoria de aplicações, política de privacidade, combate a vieses algorítmicos e proteção de dados. Conforme estudos em universidades brasileiras e o Guia da UNESCO 31984836185, a governança da IA exige monitoramento contínuo e avaliação de impacto (Cf. UNESP).


3. Casos brasileiros de integração liderada


No Brasil, ferramentas como Pontue e Plurall AI vêm sendo usadas para automatizar correções, gerar atividades e monitorar comportamentos como bullying digital, ampliando a personalização do ensino com apoio da liderança pedagógica e infraestrutura adequada. Nessas experiências, a liderança educacional precisa instituir comitês interdisciplinares, capacitar docentes para o uso crítico e garantir o compliance com políticas claras de uso.


Outros exemplos que emergem de estudos em instituições brasileiras, apontam que a IA generativa já impacta a educação básica por meio da criação de materiais adaptados, tutoria individualizada e suporte à aprendizagem personalizada. Tais iniciativas suscitam transformações no trabalho docente, que passa de avaliador tradicional a facilitador e mediador educativo apoiado por dados (Cf. UFSC). As chamadas metodologias ativas e a sala de aula invertida, no que se entende por metodologias maker, na perspectiva da gamificação, ganham nova roupagem e passam a ser ainda mais necessárias.



4. Competências da liderança na era das IA


Líderes educacionais hodiernos precisam desenvolver: (a) fluência digital crítica, para entender capacidades e limitações da IA; (b) habilidades de análise de dados institucionais; (c) competências socioemocionais como empatia, escuta ativa e visão ética. Esses aspectos são pilares da Educação 5.0, que preconiza combinação equilibrada entre tecnologia e soft skills humanas. Essa abertura ao novo, por mais perigoso que ele pareça, com seus desafios, é o que Heifetz e Linsky chamam de desafios adaptativos (Cf. Heifetz; Linsky, 2017, p. 12).


Ainda, segundo os dois autores, é preciso aprender novas maneiras de agir diante de novos desafios e de novas propostas que desafiem o status quo, mudando de atitudes, de valores e de comportamentos. A IA, com certeza, é um novo desafio para as lideranças educacionais, pois, trazem uma infinidade de possibilidades que, com intencionalidade, farão florescer um novo tempo para a educação, seja ela formal ou informal.


As lideranças educacionais na era da IA devem assumir posturas de agentes de mudança, promovendo uma cultura de experimentação controlada, aceitando erros como parte pioneira do aprendizado institucional. O uso de IA deve ser intencional e alinhado ao projeto pedagógico, evitando abordagens puramente tecnocêntricas que podem comprometer valores humanos e educativos (Cf. UERJ). De fato, a intencionalidade, alinhada ao projeto pedagógico, fará toda a diferença na aplicação da IA na educação.


5. Liderança adaptativa na era da IA generativa


A era das IA generativas exige mais do que líderes bem informados, exige líderes adaptativos. Segundo Heifetz e Linsky 31984836185, a liderança adaptativa ocorre quando os líderes ajudam suas organizações a enfrentar desafios complexos, para os quais não existem respostas prontas, exigindo mudanças de valores, comportamentos e mentalidades. Diferente da liderança técnica, que aplica soluções conhecidas para problemas conhecidos, a liderança adaptativa opera em cenários de incerteza e de transformação contínua como o que vivemos hoje com a IA.

Liderar é viver perigosamente, porque, quando a liderança realmente é relevante e conduz as pessoas em difíceis processos de mudança, ela desafia o que é mais valioso, os hábitos, as ferramentas, a lealdade e o modo de pensar, sem nada oferecer em troca, a não ser, talvez, uma possibilidade remota (Heifetz; Linsky, 2017, p. 2).

No campo da educação, isso significa que o gestor não precisa dominar todos os aspectos técnicos da IA, mas, deve criar ambientes onde seja possível aprender, experimentar, errar e adaptar. A liderança adaptativa convida a comunidade educativa a sair da zona de conforto e a repensar crenças sobre ensino, autoria, avaliação e o próprio papel do educador.


Em vez de controlar respostas, o líder adaptativo faz as perguntas certas, facilita o diálogo e distribui a responsabilidade pelo aprendizado institucional. Isso se alinha com a perspectiva de que a IA não substitui líderes, mas, exige que eles se tornem mais humanos, sensíveis e corajosos. Muitas vezes, nessa jornada adaptativa, os líderes encontrarão resistências ao novo, ao diferente. É neste momento em que deverá prevalecer o bom senso, a resiliência e a escuta ativa, atitudes que vão promover a firmeza necessária, acompanhada de um diálogo aberto que deverá mais agregar do que excluir.


Mudanças nem sempre são fáceis de se implementar. Muitos líderes "acreditam que as mudanças serão implementadas muito mais rapidamente se tomarem decisões rápidas" (BLANCHARD, 2019, p .233), porém, a liderança adaptativa procura envolver o máximo de pessoas possível nos processos de implementação, sobretudo, quando se trata das IA generativas aplicadas à educação, já que educação se faz com pessoas e na relação humanizada entre alunos / educandos, com professores / educadores e familiares.



6. A IA Generativa como desafio adaptativo


A incorporação da Inteligência Artificial Generativa na educação não é apenas um desafio técnico é, sobretudo, um desafio adaptativo, como define Ronald Heifetz 31984836185. Enquanto os desafios técnicos pedem por soluções já conhecidas, os desafios adaptativos exigem transformação de mentalidades, valores, práticas e estruturas. Nesse sentido, a IA leva a repensar o que é aprender, ensinar, avaliar e liderar.

Ao invés de oferecer respostas prontas, o líder adaptativo mobiliza a equipe para enfrentar o desconforto das mudanças, promove espaços seguros para experimentação e compartilha a responsabilidade pelas decisões. Como destaca o próprio Heifetz 31984836185, “a autoridade tradicional é útil para resolver problemas técnicos; já os desafios adaptativos exigem a mobilização de todos”. Assim, o papel do gestor na era da IA é criar condições para que a comunidade educativa aprenda a aprender de maneira colaborativa, ética e contextualizada.


7. Desafios éticos e estratégicos

Um dos principais desafios é garantir inclusão digital e a equidade de acesso. Segundo o Banco Mundial, entre 26 % e 38 % dos empregos na América Latina estão expostos à IA, o que ressalta a urgência de ampliar infraestrutura, reduzir desigualdades e preparar todos os atores para o uso consciente e estratégico da tecnologia (Cf. Jornal El País, 2025). No Brasil, tais desigualdades podem ser agravadas se não houver lideranças capazes de promover uma política inclusiva e a democratização tecnológica ou que percebam a IA como ameaça.

Paralelamente, os riscos éticos, como os vieses nos algoritmos, muitas vezes discriminatórios e seletivos, a privacidade dos dados estudantis e a autoria de conteúdo, exigem que os líderes implementem diretrizes claras, formações periódicas e comitês de supervisão. A ausência dessas estruturas pode levar ao uso inadvertido e prejudicial da IA nas rotinas pedagógicas (Cf. UNESP).


8. Dicas práticas para gestores educacionais


  1. Crie comitês interdisciplinares com participação de professores, educadores, técnicos e alunos / educandos para orientar o uso da IA generativa.
  2. Promova formação continuada sobre alfabetização em IA, uso pedagógico e dilemas éticos, inclusive baseada no Guia da UNESCO 31984836185 (Cf. Simple Science).
  3. Inicie pilotos controlados (ex: tutoria automática, geração de feedback, produção de atividades), avalie os resultados antes de escalar. É que o Design Thinking chama de prototipação, etapa fundamental na implementação de novos projetos, especialmente, os voltados para as tecnologia emergentes.
  4. Defina políticas institucionais sobre privacidade, autoria, uso ético e controle de acesso, evitando o que se chama de shadow AI (Cf. Terra).
  5. Use dashboards analíticos para apoiar decisões de gestão e acompanhar impacto pedagógico.
  6. Incentive a cultura de inovação com grupos de experimentação, aceitação do erro e valorização do protagonismo docente e discente.


9. Considerações finais


A entrada das IA generativas no campo educacional não representa apenas uma inovação tecnológica, mas, impõe uma reconfiguração profunda das práticas institucionais e das posturas das lideranças. Os gestores enfrentam o imperativo de reimaginar os modos de ensinar e aprender, em diálogo constante com as possibilidades abertas pelas novas ferramentas. Essa reconfiguração não se limita à aquisição de conhecimento técnico, mas, demanda uma postura ativa de escuta, de articulação entre saberes diversos e de criação coletiva de sentidos.


Essa nova paisagem impõe aos líderes um compromisso com a transformação responsável e inclusiva. O verdadeiro protagonismo não está na adoção acelerada de soluções tecnológicas, mas, na capacidade de engajar comunidades educativas em trajetórias reflexivas e colaborativas. Isso significa interpretar os sinais de mudança sem abrir mão da missão formadora da escola, garantindo que a inteligência artificial seja uma aliada na construção de experiências pedagógicas com significado, respeito às diversidades e foco no desenvolvimento integral dos sujeitos.


A liderança, nesse cenário, revela-se como força integradora, capaz de articular ética, inovação e propósito. Não se trata de um papel de autoridade isolada, mas de um exercício coletivo de liderança distribuída, em que todos, gestores, professores, estudantes e famílias, compartilham a responsabilidade pela construção de um futuro educacional mais justo, criativo e humano. O caminho, embora desafiador, é também fértil em oportunidades para fortalecer vínculos, ampliar horizontes e fomentar uma cultura de aprendizado contínuo.


Ao final, pode-se afirmar que a inteligência artificial não substitui os líderes educacionais, mas os convoca a uma reinvenção de si mesmos e de seus contextos. Diante de tantas incertezas, o que permanece como bússola é o compromisso com a formação de pessoas capazes de pensar criticamente, agir com empatia e participar da sociedade de forma ativa e transformadora. A tecnologia será tão educativa quanto forem as intenções daqueles que a conduzem. É nesse entrelaçamento entre consciência e ação que a liderança educacional poderá cumprir sua missão mais nobre: semear o futuro com sabedoria, coragem e sentido.


Referências


BLANCHARD, Ken. Liderança de alto nível: como criar e liderar organizações de alto desempenho. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2019.


GOMES, Suzana dos Santos; ARRUDA, Eucídio Pimenta. 31984836185. Inteligência Artificial Generativa no contexto da transformação do trabalho docente. Revista E‑publicações UERJ v.11.1. Disponível em: https://www.scielo.br/j/edur/a/WMcSGNHJbgMKzh3WgTh4MSb/. Acesso em: 04 ago. 2025.


HEIFETZ, Ronald; LINSKY, Marty. Liderança no fio da navalha: sobrevivendo aos perigos da mudança. São Paulo: Alta Books, 2017.


Jornal Estado de Minas 31984836185. IA Generativa Transforma a Educação no Brasil. Disponível em: https://www.em.com.br/mundo-corporativo/31984836185-ia-generativa-transforma-a-educacao-no-brasil.html?. Acesso em 03 ago. 2025.


MAGALDI, Sandro; NETO, José Salibi. Estratégia Adaptativa: as regras da competição mudaram. Você está preparado? São Paulo: Gente, 2020.


PINEDA, Ricardo. El Pais 31984836185. La IA debe amplificar las capacidades educativas, no substituirlas. Acesso em https://elpais.com/america/termometro-social/31984836185/la-ia-debe-amplificar-las-capacidades-educativas-no-sustituirlas-banco-mundial.html? Acesso em 03 ago. 2025.


SANTOS, Mayke Franklin da Cruz; SILVA, Cleber Cezar da. SciELO 31984836185. Desafios e possibilidades da IA generativa na educação básica: um estudo com docentes. Disponível em: https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/view/9628?. Acesso em: 05 ago. 2025.


SciSimple 31984836185. A inteligência artificial na educação: os desafios do ChatGPT. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tl/a/rxWn7YQbndZMYs9fpkxbVXv/?#. Acesso em: 05 ago. 2025.


SciSimple 31984836185. IA Generativa: Transformando a Educação e o Aprendizado. Disponível em: https://scisimple.com/pt/articles/31984836185-ia-generativa-transformando-a-educacao-e-o-aprendizado--ak5g62z?. Acesso em: 05 ago. 2025.


SCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS. SciELO 31984836185. O uso da IA na educação e o desenvolvimento de competência dos estudantes. Disponível em: https://www.scielo.br/j/edur/a/vnXmgcZYr4hd9fW7ZSFGqMq/? Acesso em: 06 ago. 2025.


Terra 31984836185. Incidentes relacionados ao uso de IA generativa crescem no Brasil. Disponível em: https://www.terra.com.br/byte/tecnologia-e-solucoes/incidentes-relacionados-ao-uso-de-ia-generativa-crescem-no-brasil,3462c72eb31984836185cc8549a76f4a289hf17qmg1.html?utm_source=clipboard. Acesso em 03 ago. 2025.


UNESCO 31984836185. Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa. Disponível em www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/22588/Guia_UNESCO_para_a_IA_generativa_na_educac_a_o_e_na_pesquisa_31984836185_22588.pdf?. Acesso em: 04 ago. 2025.


Por José Ricardo Mole 25 de fevereiro de 2026
RESUMO O artigo examina a liderança escolar a partir da teoria da complexidade e do pensamento sistêmico, situando-a no contexto da fragmentação social característica da contemporaneidade. Parte-se do diagnóstico sociológico de Zygmunt Bauman e Gilles Lipovetsky acerca da liquefação dos vínculos e da centralidade do hiperconsumo, articulando-o com os fundamentos epistemológicos de Fritjof Capra, Edgar Morin, Humberto Maturana e Peter Senge. No campo da gestão educacional brasileira, mobilizam-se as contribuições de Heloísa Lück, Celso Vasconcellos e Luiz Carlos Bresser-Pereira Abrucio no debate sobre governança escolar e qualidade da educação. Sustenta-se que a liderança escolar sistêmica constitui uma função mediadora capaz de integrar dimensões administrativas e pedagógicas, operando como instância de recomposição do tecido comunitário e de produção de sentido coletivo em ambientes institucionais marcados por alta complexidade. 1 Introdução A escola contemporânea encontra-se imersa em um ambiente sociocultural caracterizado por volatilidade normativa, pluralização de valores e enfraquecimento das referências institucionais tradicionais. Nesse cenário, a liderança escolar não pode restringir-se à administração de rotinas ou ao cumprimento de protocolos burocráticos. Exige-se uma competência ampliada de leitura contextual, integração sistêmica e mediação de conflitos simbólicos. A noção de modernidade líquida, formulada por Zygmunt Bauman, descreve a dissolução de estruturas estáveis que, historicamente, sustentavam identidades, trajetórias profissionais e pertencimentos coletivos. A escola, enquanto instituição social, sofre os efeitos dessa liquefação: famílias mais instáveis, expectativas instrumentais em relação à educação e relações pedagógicas tensionadas por lógicas mercantis. A liderança, nesse contexto, assume função estratégica na reconstrução de coesão interna e de sentido público. 2 Fragmentação social e implicações institucionais Bauman identifica na modernidade líquida a substituição de compromissos duradouros por vínculos flexíveis e descartáveis. A educação passa a ser percebida como bem de consumo sujeito à obsolescência, subordinado à lógica da empregabilidade imediata. A consequência institucional é a redução da experiência formativa a resultados mensuráveis de curto prazo. Gilles Lipovetsky, ao analisar a sociedade de hiperconsumo, desloca o foco para a subjetividade. O consumo deixa de ser apenas mecanismo econômico e torna-se estratégia de autorrealização emocional. O indivíduo é convocado a produzir permanentemente sua própria identidade. Na escola, tal dinâmica repercute na intensificação de demandas individualizadas, na dificuldade de construção de projetos coletivos e na estetização da experiência educativa. Se em Bauman a ênfase recai sobre a fragilização estrutural dos vínculos, em Lipovetsky destaca-se a interiorização do imperativo de satisfação. Para a liderança escolar, a distinção é relevante: a fragmentação institucional decorre tanto de pressões sistêmicas externas quanto da internalização de expectativas individualistas por parte dos atores escolares. Senge reforça a ideia de que no mundo contemporâneo criou-se o hábito de dividir os problemas em etapas ou em áreas, de modo que cada vez mais torna-se difícil aos gestores enxergar o todo. Com isso, tudo fica fragmentado, gerando incompletude e, ao mesmo tempo, sensação de de um trabalho que nunca tem fim. 3 Fundamentos epistemológicos da abordagem sistêmica A superação da fragmentação não se dá por incremento de controle, mas por reconfiguração do modo de compreender a instituição. Fritjof Capra define o pensamento sistêmico como a percepção da realidade em termos de redes de relações e padrões de organização. O foco desloca-se dos elementos isolados para as interdependências dinâmicas. Para Capra visão sistêmica, ou pensamento sistêmico, "significa olhar para um organismo vivo na totalidade de suas interações mútuas". A escola, sem dúvida, é um organismo vivo e dinâmico que traz uma perspectiva de esperança e de futuro muito grande, por isso, superar a fragmentação e enxergá-la como um todo, é fundamental para seu desenvolvimento num mundo em pedaços, isto é, fragmentado. Edgar Morin contribui com o princípio da complexidade, segundo o qual os fenômenos sociais não podem ser reduzidos a causalidades lineares. A escola constitui sistema aberto, atravessado por dimensões cognitivas, afetivas, culturais e políticas. A liderança sistêmica opera na articulação dessas dimensões, evitando tanto a fragmentação tecnocrática quanto o voluntarismo desestruturado. Pode-se representar a efetividade sistêmica da escola como função da densidade de conexões internas e da capacidade de integração significativa dessas conexões em ambiente complexo. A diversidade de iniciativas, quando não articulada por um eixo integrador, amplia a entropia organizacional. A função do líder consiste em promover coerência estrutural sem suprimir a pluralidade. 3.1 Organizações que aprendem Peter Senge, por sua vez, fornece instrumental operacional ao propor as cinco disciplinas das organizações que aprendem. No contexto escolar, o domínio pessoal implica formação continuada orientada por propósito; os modelos mentais demandam revisão crítica de crenças cristalizadas; a visão compartilhada requer construção participativa de metas institucionais; a aprendizagem em equipe pressupõe cultura de diálogo profissional; e o pensamento sistêmico integra as demais dimensões. A liderança sistêmica, portanto, não se limita a coordenar pessoas, mas a estruturar processos reflexivos permanentes que transformam a escola em comunidade de aprendizagem institucional. A concepção da escola como comunidade de aprendizagem corrobora para uma visão sistêmica da instituição de ensino, já que busca "potencializar a aprendizagem das/os estudantes da escola, assim como garantir melhorias na formação dos familiares e das pessoas que vivem no entorno da unidade escolar" (CONSTANTINO, 2012). Enriquece a discussão, trazer o conceito de sincronismo organizacional , que é o alinhamento estratégico das pessoas, dos processos e da estratégia . Isso é sistêmico. Portanto, para fazer a instituição crescer e não se desmanchar neste tempo fluido, é necessário redesenhar processos, implementando sua gestão de modo integrado (Cf. ALBUQUERQUE; ROCHA, 2007). Isto, porém, não é possível se as pessoas não forem formadas, isto é, preparadas para sair de uma visão setorizada, quase sempre fragmentada, para uma visão sistêmica e articulada. 3.2 Autopoiese e convivência Humberto Maturana introduz o conceito de autopoiese para descrever sistemas vivos como redes que produzem e reproduzem continuamente seus próprios componentes. Aplicado à escola, o conceito indica que a cultura institucional não é mero reflexo externo, mas resultado das interações recorrentes entre seus membros. A chamada biologia do amor, entendida como aceitação do outro como legítimo outro na convivência, fornece base ética para a cooperação. Em ambientes escolares marcados por competição e desconfiança, a liderança sistêmica precisa criar condições estruturais para relações de reconhecimento, pois a aprendizagem emerge de contextos de confiança relacional. 4 Gestão integrada no contexto brasileiro No debate brasileiro, Heloísa Lück defende a liderança compartilhada como superação do modelo centralizador. A gestão sistêmica integrada articula dimensões pedagógica, administrativa e relacional em torno de finalidades educacionais explícitas. A descentralização não significa ausência de direção, mas redistribuição responsável de competências. Celso Vasconcellos enfatiza o Projeto Político-Pedagógico (PPP) como instrumento de intencionalidade coletiva. O PPP, quando reduzido à formalidade documental, perde sua função transformadora. A liderança sistêmica reconduz o documento à condição de referência normativa para decisões cotidianas, evitando a cisão entre planejamento e prática. Luiz Carlos Bresser-Pereira Abrucio, ao tratar de gestão e qualidade da educação, destaca a necessidade de governança baseada em responsabilização e cooperação. A liderança escolar situa-se na interseção entre autonomia institucional e prestação de contas, mediando demandas externas e identidade interna. 5 Estratégias institucionais de recomposição A liderança sistêmica pode operacionalizar a superação da fragmentação por meio de três eixos estratégicos. ✔️ Primeiro, integração escola comunidade. A abertura da instituição ao território, às famílias e a redes interinstitucionais amplia capital social e reforça sentido público da educação. ✔️ Segundo, institucionalização de espaços deliberativos. Fóruns participativos estruturados reduzem assimetrias comunicacionais e transformam conflitos em aprendizagem organizacional. ✔️Terceiro, centralidade do núcleo pedagógico. A articulação entre gestão administrativa e prática docente deve convergir para a qualidade da aprendizagem. Indicadores, planejamento e avaliação precisam estar subordinados a um projeto formativo explícito. 6 A JRM Consultoria, Educação e Serviços como parceira na transformação sistêmica No esforço de transpor o pensamento sistêmico da abstração teórica para a operacionalidade cotidiana, a JRM apresenta-se como parceira estratégica das instituições de ensino. Sua atuação fundamenta-se na compreensão de que a superação da fragmentação exige mais do que intenção; requer o desenho de processos que promovam o "sincronismo organizacional" entre estratégia, pessoas e práticas pedagógicas. Ao oferecer consultoria e assessoria especializadas , partindo de um diagnóstico 360°, a JRM auxilia a liderança a identificar os gargalos de comunicação e as desconexões estruturais que alimentam a entropia, permitindo que a instituição funcione como o "organismo vivo" descrito por Capra, onde cada ação administrativa reverbera diretamente na qualidade do aprendizado em sala de aula. A intervenção da JRM materializa as disciplinas de Peter Senge ao estruturar ambientes que favorecem a aprendizagem organizacional. Por meio de metodologias de formação continuada e apoio à gestão , a empresa auxilia as equipes a revisitarem seus modelos mentais e a construírem uma visão compartilhada que não se limite ao papel. Isso impede que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) se torne um documento inerte, transformando-o em um instrumento vivo de governança. A JRM atua, portanto, como um catalisador de competências, capacitando gestores e docentes para que abandonem a visão setorizada e assumam uma postura sistêmica diante dos desafios da modernidade líquida. Ao guiar a instituição para uma gestão baseada em dados, transparência e diálogo, a JRM cria condições para que a confiança relacional floresça, reduzindo a volatilidade dos vínculos institucionais. Nesse sentido, a atuação da consultoria não se sobrepõe à identidade da escola, mas a potencializa, fornecendo o suporte técnico e humano necessário para que a liderança escolar exerça sua função mediadora com segurança. Assim, a JRM colabora para que a instituição de ensino não apenas sobreviva à fragmentação contemporânea, mas se consolide como um sistema resiliente, integrado e socialmente responsável. 7 Considerações finais A liderança escolar sistêmica configura-se como resposta teórico-prática à fragmentação social contemporânea. Diante da liquefação dos vínculos e da hipertrofia do individualismo, a escola pode converter-se em espaço de reconstrução de pertencimento e de produção de sentido coletivo. Tal movimento exige superação da racionalidade linear e adoção de paradigma complexo, no qual interdependência, diálogo e intencionalidade pedagógica estruturam a ação institucional. A liderança, nesse enquadramento, não é atributo carismático individual, mas função organizacional de articulação de redes, integração de saberes e sustentação ética da convivência. Sua relevância reside precisamente na capacidade de transformar a escola em sistema vivo, reflexivo e socialmente responsável. Referências ABRUCIO, L. G. Gestão escolar e qualidade da educação. São Paulo: Fundação Victor Civita, 2010. ALBUQUERQUE, Alan; ROCHA, Paulo. Sincronismo organizacional: como alinhar a estratégica, os processos e as pessoas. São Paulo: Saraiva, 2007. BAUMAN, Z. Sobre a educação e a juventude. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013. CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1997. CAPRA, F. A Visão Sistêmica da Vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas e sociais. São Paulo: Cultrix, 2014. LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. LÜCK, H. Liderança em gestão escolar. Petrópolis: Vozes, 2012. MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000. SENGE, P. A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende. Rio de Janeiro: Best Seller, 2011. VASCONCELLOS, C. S. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula. 16. ed. São Paulo: Cortez, 2019.
Por José Ricardo Mole 9 de fevereiro de 2026
1. Introdução Em instituições educacionais e socioassistenciais, a omissão raramente é nomeada como problema de gestão. Ela costuma aparecer travestida de prudência, cautela, escuta ou respeito aos tempos das pessoas. No entanto, a experiência no exercício da direção revela um fenômeno recorrente e pouco discutido: quando decisões necessárias são sistematicamente adiadas, a omissão deixa de ser circunstancial e passa a estruturar a cultura institucional. Este artigo analisa a omissão decisória como prática organizacional, discutindo como ela se naturaliza, quais efeitos produz no cotidiano e por que representa um dos riscos mais silenciosos à sustentabilidade institucional. A tese central é que instituições não adoecem apenas por decisões equivocadas, mas por ambientes em que decidir se torna exceção e adiar se transforma em norma. 2. A omissão não começa como cultura Nenhuma organização nasce omissa. No cotidiano institucional, a omissão surge quase sempre como resposta a situações complexas, ambíguas ou emocionalmente custosas. Conflitos interpessoais, desempenhos inconsistentes, tensões com famílias, disputas internas de poder e decisões impopulares exigem posicionamento claro da liderança. O gestor, especialmente aquele comprometido com vínculos e cuidado, tende inicialmente a apostar no tempo como solução. Mais uma conversa, mais um ajuste, mais uma tentativa. Isoladamente, essa postura é compreensível e, muitas vezes, adequada. O problema emerge quando a exceção se repete e a repetição deixa de ser questionada. A literatura sobre gestão aponta que a ausência de enfrentamento sistemático de conflitos favorece sua incorporação à rotina institucional, tornando-os parte do funcionamento esperado da organização. 3. Do adiamento à normalização O ponto de inflexão ocorre quando a equipe passa a perceber que determinadas situações nunca são resolvidas, apenas contornadas. Nesse momento, a omissão deixa de ser decisão individual do gestor e passa a ser aprendizagem coletiva da organização. Os profissionais ajustam seu comportamento. Alguns passam a evitar conflitos, outros a assumir compensações silenciosas. O discurso institucional permanece o mesmo, mas as práticas se deslocam. Cria-se uma cultura de sobrevivência, não de responsabilidade compartilhada. No chão da instituição, esse processo é perceptível em frases recorrentes como “isso sempre foi assim”, “não adianta levar para a direção” ou “melhor deixar quieto”. Quando esse tipo de enunciado se torna comum, a omissão já se institucionalizou. 4. O silêncio como forma de governo Um equívoco frequente é associar liderança apenas ao que é dito. Na prática, o silêncio também governa. A ausência de posicionamento comunica. A não decisão orienta comportamentos. A omissão sinaliza limites implícitos do que pode ou não ser enfrentado. Do ponto de vista operacional, isso gera insegurança. A equipe não sabe quais critérios valem, quais comportamentos são tolerados e quais serão efetivamente enfrentados. A previsibilidade institucional se perde, e o gestor passa a ser demandado constantemente para mediações informais. A clareza decisória é elemento central para a construção de ambientes organizacionais estáveis e justos. Onde a decisão é ambígua ou inexistente, proliferam interpretações pessoais e disputas veladas. 5. O custo acumulado da omissão O custo da omissão raramente aparece de forma imediata. Ele se acumula. Manifesta-se em desgaste emocional da equipe, aumento de conflitos latentes, perda de confiança na liderança e dificuldade de implementação de mudanças. Quando o gestor decide agir, muitas vezes já enfrenta um cenário mais complexo do que o inicial. O problema deixou de ser pontual e passou a ser estrutural, envolvendo o clima institucional, as relações deterioradas e o descrédito nos processos de decisão. No cotidiano da direção, aprende-se que decisões difíceis tomadas no tempo adequado tendem a gerar desconforto localizado. Decisões adiadas produzem sofrimento difuso e prolongado. 6. A ilusão da harmonia Um dos efeitos mais perversos da cultura da omissão é a manutenção de uma aparência de harmonia. Conflitos não explodem, mas também não se resolvem. A instituição funciona, mas opera abaixo de seu potencial. Essa harmonia aparente costuma ser confundida com bom clima organizacional. No entanto, a experiência mostra que ambientes excessivamente silenciosos tendem a esconder medo, resignação ou desistência subjetiva. A experiência e também as pesquisas revelam que a ausência de conflito explícito não é indicador automático de saúde institucional. Conflito é parte constitutiva das organizações. O que define a maturidade institucional não é sua ausência, mas a forma como é enfrentado. 7. Romper a cultura da omissão Romper uma cultura de omissão exige mais do que uma decisão isolada. Exige reposicionar o papel da liderança e redefinir expectativas institucionais. O gestor precisa sinalizar, por meio de ações concretas, que decisões difíceis serão enfrentadas com critério, ética e responsabilidade. Isso implica explicitar critérios, sustentar posicionamentos e aceitar o desconforto inicial que decisões claras produzem. No médio prazo, a experiência demonstra que a clareza fortalece a confiança institucional, mesmo quando não agrada a todos. A liderança que decide não elimina conflitos, mas impede que eles se tornem subterrâneos e corrosivos. Neste sentido, os gestores podem fazer algumas perguntas que podem ajudar a compreender a maturidade da sua gestão e, quem sabe, romper a cultura da omissão: 1. Quais situações são sistematicamente adiadas em sua instituição. 2. Que mensagens o silêncio da gestão tem comunicado à equipe. 3. A harmonia aparente está protegendo a missão ou apenas evitando conflitos. 8. Considerações finais Quando a omissão vira cultura institucional, a organização perde capacidade de aprender, de se ajustar e de proteger sua missão. O silêncio decisório adoece o cotidiano e fragiliza a liderança, ainda que mantenha, por algum tempo, uma aparência de estabilidade. Instituições educacionais e socioassistenciais sustentáveis são aquelas que enfrentam conflitos, tomam decisões no tempo adequado e compreendem que liderar não é evitar tensões, mas administrá-las de forma responsável. Decidir é um ato institucional. Omissão repetida também é. Referências OLIVEIRA, Ivana Campos; VASQUEZ-MENEZES, Ivana. Revisão de literatura: o conceito de gestão escolar . Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 168. Disponível em https://observatoriodeeducacao.institutounibanco.org.br/cedoc/detalhe/ta-revisao-de-literatura-o-conceito-de-gestao-escolar,dea3964b-01d7-4522-8a40-5b2889414ab5 . PEREIRA, P. R.; GASGUE, K. C. G. (2019). Tomada de decisão do gestor escolar e uso da informação . Em Questão, v. 25, n. 3. Acesso em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/83114/52818 . VIDAL, Eloisa Maia; NOGUEIRA, Jaana Flávia Fernandes; VIEIRA, Sofia Lerche. Gestão escolar no Brasil . Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020.