LIDERAR É DESEJAR: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DA LIDERANÇA EDUCACIONAL

José Ricardo Mole • 7 de novembro de 2025

1. A gênese do desejo e o nascimento do sujeito


Sigmund Freud, ao inaugurar a psicanálise no final do século XIX, introduziu uma revolução epistemológica: o homem não é senhor em sua própria casa. Nossas decisões, crenças e afetos são constantemente atravessados por forças inconscientes. Entre elas, o desejo ocupa lugar central, não como simples vontade ou carência, mas como a energia psíquica que nos move na busca do reconhecimento e da completude que jamais se alcança.


Em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud propôs que o desejo humano é estruturado pela falta e orientado pela alteridade. O sujeito só se constitui como tal na relação com o outro. É nesse contexto que emerge a célebre formulação: “eu só me torno uma pessoa quando sou o desejo de alguém”. A identidade, portanto, não é autossuficiente, é relacional.


Essa concepção desvela o pano de fundo de toda relação de liderança: o líder e o liderado estão enredados em uma trama de desejos recíprocos e projeções inconscientes. Liderar é, inevitavelmente, lidar com o desejo, o próprio e o dos outros.


2. O inconsciente na dinâmica da liderança


Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), já observava que os grupos são constituídos por vínculos libidinais e por identificações afetivas com a figura de liderança. O líder, simbolicamente, torna-se o centro de coesão do grupo, depositário de ideais e frustrações. Assim, a liderança não se exerce apenas por autoridade formal, mas pela economia do desejo que circula entre os sujeitos.

 

Cada decisão, cada conflito, cada gesto de reconhecimento carrega dimensões inconscientes que escapam à racionalidade administrativa. Por isso, a psicanálise nos ensina que não há liderança puramente técnica ou objetiva: toda liderança é também afetiva, simbólica e, em certa medida, transferencial.


Jacques Lacan (1953) reforça essa ideia ao formular que “o desejo do homem é o desejo do outro”. O líder deseja ser reconhecido; o grupo deseja ser conduzido. Ambos se constituem reciprocamente no espelho do desejo. Nesse jogo, o perigo surge quando o líder perde a autonomia de seu próprio desejo e passa a se guiar apenas pelo olhar do outro, pela necessidade de aprovação, pela busca incessante de admiração ou de controle. A liderança, então, adoece: transforma-se em narcisismo, dependência e exaustão simbólica.


3. Transferência, projeção e repetição: o triângulo inconsciente das relações de poder


Freud, em A dinâmica da transferência (1912), mostrou que toda relação interpessoal carrega repetições de vínculos primários. O sujeito transfere sobre figuras de autoridade afetos e expectativas inconscientes originados nas relações com os pais. No contexto educacional, isso é ainda mais evidente: o líder é muitas vezes investido como uma figura parental, aquele que acolhe, pune, orienta e garante o sentido.


O fenômeno da transferência é inevitável e, quando compreendido, pode ser uma poderosa ferramenta de gestão. O líder consciente dessas dinâmicas não reage impulsivamente às idealizações ou críticas, mas as interpreta como manifestações simbólicas do grupo. Ele compreende que cada resistência pode esconder medo, e cada silêncio pode expressar lealdade inconsciente a padrões antigos.


Por outro lado, quando o líder ignora o inconsciente, torna-se refém da projeção: vê nos outros aquilo que não reconhece em si mesmo. Assim, um gestor que teme o conflito tende a rotular seus subordinados como “difíceis”; aquele que reprime a própria insegurança tende a controlar excessivamente. O desconhecimento de si gera a repetição, outro conceito freudiano fundamental (Além do Princípio do Prazer, 1920). Repetimos, na organização, as mesmas defesas que um dia nos protegeram na infância.


Liderar, portanto, é interromper o ciclo da repetição inconsciente por meio da consciência reflexiva. É substituir a reação automática pela interpretação simbólica. O líder maduro não responde apenas ao sintoma; ele lê o sentido.


 4. O líder educacional como sujeito do cuidado


No universo da educação, essa leitura se torna especialmente relevante. O gestor escolar não apenas coordena processos pedagógicos ou administrativos. Mais do que isso, ele sustenta vínculos humanos profundamente atravessados por afetos, idealizações e transferências. A escola é um espaço simbólico de grande densidade emocional: é nela que se projetam sonhos, frustrações e desejos coletivos.


Winnicott (1960), ao falar do ambiente facilitador, descreve o papel do adulto que sustenta o crescimento do outro sem sufocá-lo. Esse conceito pode ser transposto para a liderança educacional: o bom líder é aquele que oferece segurança para que o grupo se desenvolva, sem roubar-lhe a autonomia. Ele é, simultaneamente, continente e espelho. Acolhe, mas devolve; escuta, mas também confronta.


Tal posição exige maturidade psíquica e autoconhecimento emocional. Sem eles, o líder pode confundir cuidado com controle, empatia com fusão afetiva, escuta com submissão. A liderança educativa, quando imatura, tende a produzir dependência; quando consciente, promove emancipação.


Como observa René Kaës (1997), as instituições funcionam como aparelhos psíquicos grupais, dotados de seus próprios fantasmas, medos e desejos. O líder educacional, nesse contexto, é o intérprete desses conteúdos coletivos. Sua função vai além da gestão: é a de dar sentido, transformar pulsões dispersas em propósito comum.


5. O autoconhecimento como ferramenta de gestão


Em tempos de discursos superficiais sobre “inteligência emocional” e “autogestão”, a psicanálise nos oferece um caminho mais profundo: o autoconhecimento como travessia ética. Freud (1930) afirmava que a cultura exige de nós um permanente trabalho psíquico para conter impulsos e transformar pulsões em criação, processo chamado de sublimação.


No contexto da liderança, a sublimação se expressa na capacidade de converter emoções brutas, raiva, medo, inveja e vaidade, em ações simbólicas produtivas: reconhecimento, escuta, planejamento, mediação. O líder que se conhece é aquele que transforma o afeto em decisão lúcida.

 

Esse processo não se dá de forma espontânea: requer análise constante, escuta de si e disposição para o desconforto. Como lembra Bion (1961), “a função do líder é suportar a ansiedade do grupo sem sucumbir a ela”. O líder educacional precisa sustentar a incerteza, sem buscar respostas rápidas ou soluções mágicas. Seu papel é criar sentido no meio do caos.


6. Desejo, poder e ética na liderança educacional


Liderar implica ocupar um lugar de poder simbólico, mas, à luz da psicanálise, poder e desejo são indissociáveis. Lacan (1969-70), em “O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise”, afirma que toda relação de poder é também uma economia do gozo. O risco, portanto, é o gozo do poder pelo poder, o prazer inconsciente de dominar, controlar ou ser admirado.


A ética da liderança educacional exige que o desejo do líder esteja a serviço do propósito, e não do ego. É nesse ponto que a psicanálise se torna ferramenta de discernimento: ajuda-nos a distinguir o desejo autêntico de servir do desejo narcísico de ser amado.


O líder ético é aquele que renuncia à onipotência e reconhece seus próprios limites. Ele compreende que o verdadeiro comando nasce da escuta; que autoridade não é domínio, mas presença simbólica. Compreende que educar, como liderar, é, acima de tudo, um ato de amor mediado pela falta, não pela posse.


7. Liderar é desejar, mas saber o que se deseja


Chegamos, então, ao ponto crucial: liderar é desejar, mas é preciso saber o que se deseja. O líder que desconhece seu próprio desejo corre o risco de ser guiado pelos desejos alheios: da equipe, da instituição, do mercado, do público. Nesse movimento, perde o eixo e torna-se refém do olhar do outro.


A liderança educacional, por lidar com pessoas e significados, é um terreno fértil para esse desvio. O gestor pode ser seduzido pela necessidade de aprovação constante, pelo desejo de ser “amado pelos professores”, “admirado pelos pais” ou “indispensável aos superiores”. Contudo, como ensina a psicanálise, o reconhecimento externo é sempre transitório; o sentido autêntico nasce da coerência interna.


Por isso, o autoconhecimento é mais que um requisito emocional, é um ato de responsabilidade institucional. Líderes que se escutam constroem instituições mais saudáveis, relações mais autênticas e culturas organizacionais mais sustentáveis.


8. Conclusão: o desejo como força transformadora


O desafio do líder educacional contemporâneo é unir técnica e subjetividade, estratégia e escuta, gestão e simbolismo. A psicanálise oferece um mapa para essa travessia: compreender que o outro não é objeto de controle, mas sujeito de desejo.


O verdadeiro poder de liderar não está na hierarquia, mas na capacidade de transformar o desejo individual em sentido coletivo. E isso só é possível quando o líder se permite olhar para dentro, reconhecer-se, reconstruir-se, e, sobretudo, desejar com consciência.

 

Freud nos ensina que o homem é movido por forças que ele não domina. Lacan, por sua vez, acrescentou que o sujeito só existe no desejo do outro. Winnicott, todavia, mostrou que o cuidado é a base da existência.


A liderança educacional, então, é o ponto de encontro desses três legados: o inconsciente que pulsa, o desejo que orienta e o cuidado que sustenta.


Antes de encarar sua jornada diária, talvez valha o convite: desliga o automático. Olha para dentro. Entende o que o move. Porque o verdadeiro poder de liderar não vem de fora, vem do desejo de fazer sentido.


Referências,


BION, Wilfred. Experiências em grupos. Rio de Janeiro: Imago, 1961.


FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. 1905.


FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência. 1912. FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. 1921.


FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. 1920.


FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930.


KAËS, René. O grupo e o sujeito do grupo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.


LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. 1953.


LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.



WINNICOTT, Donald. O ambiente e os processos de maturação. Rio de Janeiro: Imago, 1960.


Por José Ricardo Mole 19 de março de 2026
1. O despertar da proteção online O ambiente digital brasileiro atingiu um ponto de saturação crítica que exige uma intervenção imediata. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 92% dos jovens entre 9 e 17 anos acessam a rede, mas o dado mais alarmante vem do Cetic.br : o uso da internet por crianças de 0 a 2 anos saltou quase 400% na última década. Esse cenário de exposição precoce impulsionou a criação da Lei nº 15.211/2025, o chamado ECA Digital. Este marco legal adapta o estatuto de 1990 à complexidade do século XXI, enfrentando riscos como o cyberbullying e a exploração comercial. A lei ganhou força após as denúncias do influenciador Felca sobre a exploração de menores em lives, o que rendeu ao texto o apelido de "Lei Felca". Agora, o Brasil estabelece que a proteção da infância é o "padrão de fábrica" da internet brasileira. 2. Adeus ao "tenho mais de 18 anos": o fim da autodeclaração A tradicional caixa de seleção de idade, que qualquer criança conseguia burlar com um clique, deixará de ser permitida para atividades de risco. O ECA Digital exige que as plataformas implementem métodos de verificação robustos, como análise de comportamento, selfie para estimativa etária ou verificação de documentos oficiais. O objetivo é garantir que o acesso a conteúdos inadequados seja efetivamente bloqueado. O grande triunfo tecnológico desta mudança é a chamada "Prova de Conhecimento Zero" (Zero Knowledge Proof). Para o usuário, funciona como uma metáfora simples: é como mostrar a um segurança que você tem a chave correta para entrar em um local, sem precisar revelar seu nome, endereço ou entregar sua chave original. Isso permite que a plataforma confirme que você é maior de idade sem nunca precisar visualizar ou armazenar seus dados sensíveis. "Quanto maior o risco da atividade, mais rigorosa deverá ser a verificação." Ministério da Justiça. 3. Safety by design: a responsabilidade agora é das plataformas Uma das transformações mais profundas é a introdução do Safety by Design e do Privacy by Default. A responsabilidade pela segurança online deixa de ser um peso exclusivo dos pais e passa a ser uma obrigação ativa das empresas. Isso significa que a configuração mais restritiva de privacidade deve ser o padrão do aplicativo e não algo escondido nos menus de ajuste. A lei introduz o conceito vital de "acesso provável". Isso implica que mesmo que uma plataforma não seja oficialmente "para crianças", se houver probabilidade de acesso por menores devido à sua atratividade, ela deverá seguir as regras de proteção. Além disso, o ECA Digital proíbe os "dark patterns" (truques de interface desenhados para enganar o usuário) e o uso de recompensas viciantes por tempo de tela. 4. O escudo contra a publicidade predatória e o perfilamento emocional A nova legislação impõe um freio ético rigoroso aos algoritmos de marketing voltados ao público infantojuvenil. Fica terminantemente proibido o uso de perfis emocionais e comportamentais para direcionar anúncios a menores. As empresas não poderão mais explorar a vulnerabilidade psicológica das crianças para vender produtos com base em seus sentimentos ou estados de ânimo momentâneos. Essa proteção visa combater a adultização precoce e a exploração comercial agressiva em ambientes digitais. A lei veda a monetização de conteúdos que incentivem comportamentos prejudiciais ou que utilizem tecnologias imersivas para fins publicitários predatórios. O foco agora é garantir que o desenvolvimento biopsicossocial do jovem não seja sacrificado em prol de métricas de engajamento ou lucro publicitário. 5. Supervisão parental como recurso de produto, não um "extra" Para menores de 16 anos, as contas em redes sociais e jogos devem obrigatoriamente ser vinculadas a um responsável legal. As ferramentas de supervisão deixam de ser um "adicional" e passam a ser uma funcionalidade nativa e obrigatória dos produtos digitais. As empresas devem oferecer recursos simples para que as famílias possam monitorar o uso de forma eficiente e segura. Ferramentas nativas para limitação de tempo de uso diário. Controle simplificado de geolocalização e interações com desconhecidos. Padrões de segurança que bloqueiam automaticamente mensagens de perfis não vinculados. Embora a tecnologia forneça camadas de proteção indispensáveis, o diálogo familiar e a educação digital nas escolas continuam sendo ferramentas insubstituíveis. O ECA Digital não substitui a presença dos pais, mas, oferece a eles o suporte técnico que antes era inexistente. 6. Direitos de dados e o "botão de pânico" das famílias O ECA Digital aplica os princípios da LGPD de maneira ainda mais severa, estabelecendo o "melhor interesse da criança" como a regra de ouro para qualquer tratamento de dados no Brasil. Isso garante que as famílias tenham um controle real sobre a pegada digital de seus filhos, com mecanismos de transparência sobre o que é coletado e por qual motivo. As plataformas agora operam sob prazos rígidos: elas têm apenas 15 dias para responder a solicitações de acesso, correção ou exclusão total de dados de menores. Esse "botão de pânico" assegura que informações sensíveis possam ser removidas rapidamente caso os responsáveis identifiquem qualquer risco à privacidade ou à segurança da criança no ambiente virtual. 7. Conclusão: um olhar para 17 de março de 2026 O prazo para a implementação total do ECA Digital terminou em 17 de março de 2026. Esta data foi antecipada pela Medida Provisória 1.317/202 5 , que também fortalece a fiscalização ao transformar a Autoridade Nacional de Proteção de Dados na nova A gência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Com status de agência, o órgão terá mais autonomia e poder para punir plataformas que descumprirem as novas normas. A eficácia desta lei, por sua vez, dependerá de um pacto coletivo entre o Estado, as big techs e cada um de nós. A tecnologia evolui em uma velocidade que desafia os códigos, mas, a dignidade humana deve ser constante. Fica a provocação: estamos prontos para priorizar uma infância genuinamente protegida, mesmo que isso signifique abrir mão de um pouco da conveniência imediata do mundo conectado?